sexta-feira, 29 de junho de 2012

Do lamentável sentido de humor contemporâneo


Três situações com pessoas diferentes nos últimos dias:

Situação 1: Estávamos na praia num fim de tarde bem quente e uma tipa do grupo ao fumar um cigarro feito por ela própria, deixa cair inadvertidamente a ponta do mesmo sobre a canga que usava como toalha. Como não se apercebeu de imediato, ao reparar tardiamente, já um grande buraco havia-se apoderado da mesma. De imediato um coro de riso, inclusive com as palavras de alento de uma amiga dela, tida no grupo como divertidissima, que usou a tal frase motivacional  "Não aprendas a fazer isso direito, que não é preciso!" Pior disto tudo é que ela ficou mesmo chateada, dando a entender que aquela canga comprada no estrangeiro tinha muito mais valor do que o tecido em si.
Situação 2: Mais tarde e já com outras pessoas, uma situação que pode acontecer a todos: Sabem quando vamos ali andar entre a berma e a estrada e existe aquele género de degrau que as separa? Por vezes pode falhar um pé e por pouco não caímos estatelados no chão. Foi o que aconteceu ao V. antes de ontem. De imediato os dois outros que seguiam atrás desatam a rir ruidosamente daquela situação (no fundo estavam a rir-se dele) e este não disfarçou o seu mal-estar, por que ia de havaianas e parece ter-se magoado a sério. Enfim, eu pensava que só crianças de 12 anos se ririam daquilo e não pessoas que estão quase nos 30, mas já começo a acreditar em tudo.

Ultima situação ontem: Ao sair com um grupo de um centro comercial, deparamo-nos com um indivíduo bastante alto, musculado com pinta de segurança de discoteca, cabeça rapada e óculos escuros. Vestia uma t-shirt vermelha que dizia em letras grandes "Dá-me um abraço". Quando nos cruzamos com ele ninguém disse nada. mas alguns segundos mais tarde, começaram as piadinhas e os risos, com comentários do género "Meu Deus, quem lhe daria um abraço?" (risos), "poxa, que pinta de violador!" (mais risos), "Será que fugiu de Caxias?!" (risada monumental). Fiquei perplexo com aquilo e não é falta de sentido de humor da minha parte.
Eu gosto de humor sarcástico, negro até, mas nunca o usei para ridicularizar ninguém, exacerbar situações em que as pessoas foram infelizes, voluntária ou involuntariamente, mas parece que longe já vão os tempos em que as pessoas se riam por situações realmente engraçadas, que se riam (e contavam anedotas) sem que o objectivo fosse gozar com alguém. Agora o que está a dar é rir-se por situações infelizes dos outros, por "fails" monumentais ou até por causa das aparências, popularizados nos fêissebuques da vida airada, nos apanhados e nas series de televisão sem cabeça nem tronco e a conclusão que eu cheguei após todas estas situações que presenciei é que o Einstein não foi um génio por acaso e a sua mítica expressão de que só duas coisas são eternas; o universo e a estupidez, reservando algumas dúvidas quanto à primeira, nunca fizeram tanto sentido como hoje.

6 comentários:

Joana disse...

Eu sou perita, desde pequena, em acontecimentos estúpidos.
Deixo só alguns exemplos: chocar contra um candeeiro público enquanto caminhava porque ia a olhar para o lado; ficar com o pé preso nas sargetas (já me aconteceu mais do que uma vez; querer entrar na repartição de finanças e não perceber que a antiga porta está fechada com um vidro e chocar com toda a força, nem sei como o vidro não se partiu; ou querer entrar num carro idêntico ao meu, que estava uns lugares mais à frente, e não perceber porque é que a porta não abria.
Depois ainda tenho aquela parte que sempre que a porta diz Puxe, eu empurro.
Nos primeiros instantes fico "roxa de vergonha" e furiosa comiga mesma, mas depois começo a rir às gargalhadas com as pessoas que presenciaram o acontecimento.
Estás a ver porque digo que sou ET? ;)

Concordo contigo, pois acho que ultimamente está instituido rir da estúpidez alheia e as publicações das mesmas nas redes sociais ainda o motivam mais.

Beijinhos e bom fim de semana

AC disse...

Sou suspeita, porque me rio das coisas mais idiotas que possas imaginar... e peço desculpa, mas se vir uma pessoa tropeçar é mais forte que eu mas desato logo a rir... e quando sou eu a cair também sou a primeira a rir-me de mim própria...Há coisas que nos acontecem que de tão parvas que são, dão mesmo vontade de rir...
(não te zangues....)

FireHead disse...

No fundo a vida é como uma telenovela ou uma revista cor-de-rosa: o que acontece aos outros é que é digno de interesse, se os outros se põem a jeito nós só temos é de nos rir deles, mas se somos nós que nos borramos, aí não toleramos que façam connosco o que gostamos de fazer aos outros.

O que nunca deixou de fazer sentido mesmo é o ditado "não faças aos outros aquilo que não queres que os outros te façam a ti".

Mas também podemos ter uma postura mais cruel connosco próprios, como sugere a AC, e rirmo-nos também das nossas desgraças. Só assim teremos o legítimo direito na verdade de nos rirmos dos outros.

S* disse...

Por acaso esses preconceitos irritam-me. O namorado também é largo, encorpado, cabeça rapada e gosta de andar de óculos escuros. Isso nada diz sobre ele.

Martini Bianco disse...

Joana,
Todos nós já sofremos um pouco com essas situações, quase todas involuntárias, que variam desde cair estatelados no chão ou até pisar caca de cão, mas dantes havia discrição ou ao menos alguma sensibilidade para ver que a pessoa não gostou daquilo mas hoje goza-se na cara, mesmo "à cara podre" e isso chateia-me um bocado pois eu não funciono assim.

Beijinhos


AC,
Essa coisa de ser a primeira a rir de si própria é mais uma defesa psicológica do que outra coisa qualquer. Eu não tenho nada contra quem ri por isto ou por aquilo, mas ver alguém a rir de alguém quando este ou esta estão visivelmente chateados com a situação só representa estupidez.

Martini Bianco disse...

Fire,
Por acaso nada disto aconteceu comigo. Fui apenas um observador mas não gostei, por que estavam-se a rir (e de forma pejorativa e gratuita) de pessoas que à partida sao amigos..Quanto à questão da AC, reafirmo que é defesa psicológica, "bora rir de mim primeiro antes que os outros o façam".

S*
isto não é sobre preconceito, é sobre estupidez e inconveniência para além de que as aparências hão-de iludir para sempre.

around the world

Geo [01-07-2012]