quinta-feira, 31 de maio de 2012

Teoremas da discriminação de género no século XXI #2

Gosto muito da minha sobrinha que tem dois anos e meio e apesar de não a ver com a frequência que desejaria, sempre que lá vou aproveito um momento ou outro para ir dar um passeio com ela pelas redondezas, dando algum descanso à minha irmã que tem sempre muito trabalho da escola para fazer em casa para além de vir cansadíssima por aturar aqueles putos da primária. Apesar de ali poucos me conhecerem, como ainda é uma zona semi-rural as pessoas ainda se sentem na obrigação de falarem umas com as outras para além do "bom dia", "boa tarde" e numa dessas voltinhas cruzamo-nos com uma velhota relativamente simpática e bonacheirona que apressou-se a fazer-lhe festinhas na cabeça e exclamou "Ah que linda menina! E a mãe, onde está?"
Quem pensa que esta pergunta é inocente engana-se. Em muitos lugares ainda é frequente que se evoque a "mãe", sempre que se vê uma criança com alguém que possa ser ou aparentar ser o seu pai, quase sempre com boa intenção. Sei disso, mas quando acontece ao contrário, ou seja, a mãe com o filho/filha em algum lugar, nunca ninguém lhes pergunta "Onde está o pai?".
E isto não é caso somente das zonas rurais pois também já me aconteceu do mesmo em Lisboa, num dia em que fui dar uma volta com uns primos ali pela zona dos Jerónimos e estava com o puto deles que deveria ter na altura uns dois anos também. Um grupo de senhoras que parece ter gostado muito do miúdo, cercaram-nos e uma delas acabou por me fazer a mesma pergunta, com alguns sorrisos pelo meio. Deveria ser para fazerem aquelas comparações ridículas sobre se o filho é mais parecido ao pai ou à mãe, ou até de outra cor, que isto hoje em dia já nada me admira.
Ainda sobre o primeiro caso, chegado a casa perguntei à minha irmã se lhe costumavam fazer esse tipo de pergunta quando ela está com a filha em algum lugar que não seja aquele (porque lá o pessoal conhece-a). A resposta, veio de encontro àquilo que eu já esperava. Nunca ninguém lhe fez essa pergunta.

Este caso é o exemplo de como ainda hoje em dia a sociedade ainda é semi-matriarcal e mostra que a linha de pensamento não mudou nesta questão, acabando por discriminar o homem em relação à mulher, julgando ser normal ver uma mulher sozinha com o filho/a e achar estranho ver um homem sozinho com o filho/a.

E assim vai a discriminação de género no século XXI

23 comentários:

Joana disse...

Por ser mulher, nunca me apercebi disso, embora os meus primos mais novos e afilhado já tenham passado várias vezes por meus filhos.

Esta tendência de as mães é que devem de ter os filhos, tão enraizada que está em Portugal, não me parece bem. Falo com algum conhecimento de causa, pois tenho 3 amigos divorciados, que escolheram mães para os seus filhos que não se revelaram serem as melhores. Uma deles, embora tenha a custódia permanente dos miúdos, dada pelo tribunal, tem o bom senso de os deixar ficar com o pai a maior parte do tempo sem colocar grandes entraves a isso. Outra delas está neste momento a tornar a vida do meu primo um inferno, pois só deixa o pai ver os miúdos de 15 em 15 dias, o que o tribunal ordenou, embora na maior parte dos dias, por questões profissionais, não veja os miúdos e pede a uma amiga para os ir buscar e ficar a tomar conta deles. Acho que não lhe custava nada pedir ao pai e aos avós para os irem buscar e ficarem com eles nesse dias, mas não o faz nem admite esse hipótese como válida, pois já foi confrontada com ela.
O outro meu amigo, quando se divorciou ficou sem a custódias das miúdas, mas depois de 2 anos completamente alucinados onde a mãe utilizava as miúdas para atingir o ex-marido, onde bateu no pai das miúdas à frente delas ou sempre que o pai as ia buscar de 15 em 15 dias para ter o seu fim de semana, só as conseguia trazer com a polícia. A senhora é maluca da cabeça, mas felizmente lá conseguiu provar em tribunal que todas estas atitudes destabilizavam as meninas e ficou com a custódia das filhas. o que me chateia neste último caso é que aqundo do divórcio já existiam indícios de que a mãe não tinha condições psicológicas para ficar com as miúdas, mas mesmo assim o tribunal deu-lhe a custódia, porque em Portugal é como se o pai não tivesse capacidades para tomar conta dos filhos. É certo que há muitos que não têm, mas dadas certas situações, acho que deveria de haver mais bom senso e pensarem acima de tudo o que é melhor para as crianças. Porque há muitas mães que não sabem ser boas mães.

Com isto tudo quero dizer que sou a favor da custódia repartida e que independentemente da ordem do tribunal, as crianças deveriam ter hipótese de estar com o pai e com a mãe sempre que possível.

Desculpa o longo comentário.

Beijinhos

Maria disse...

O meu irmão tem 5 anos e meio e o meu pai vai fazer 58. Embora bem conservado, por vezes perguntam-lhe pelos pais da criança. Fica furioso... ;)

Martini Bianco disse...

Joana,

É natural que nos apercebamos destas coisas quando isto toca ao nosso género em particular, pois quando não nos toca quase nem nos apercebemos da discriminação que existe no oposto. Ainda no post anterior alguém referia tipos de discriminação que acontecem às mulheres, mas como esse tipo de notícia tem mais que destaque na comunicaçao social, nestes dias estou a apontar a dicriminação contrária, que é mais silenciosa mas tão comum como am outra.

Eu, apesar de há tempos ter defendido as familias mono-parentais por forma a defender as crianças, concordo com a tua opinião nos casos que focaste, pois esses são mais casos de semi-matriarcalismo que continua a pairar na sociedade. Sei que existem mais pais negligentes que mães negligentes, mas nao se pode generalizar e a justiça que temos é um reflexo da nossa mentalidade e é natural que os juizes dêem quase sempre a custódia às mães, especialmente quando é uma juíza a deliberar, excepções a isto só mesmo casos tipo Cristiano Ronaldo, que pagou uma fortuna à progenitora para ela desaparecer.

Estranho é que em pleno Século XXI ainda existem pessoas que só olham para trás e que só tomam como natural e aceitável os métodos com que cresceram a aprender, a ver e a fazer.


Não tens que te preocupar com a extensão dos comentários, pois é desses comentários que acrescentam algo á questão que eu gosto e peço :)

Beijinhos

Martini Bianco disse...

Maria,

Essa situação ainda é pior. É o verdadeiro cúmulo. Coitado do homem, que às tantas deve ser melhor pai do que muitos outros que têm metade da idade dele.

Lucas disse...

Neste caso, acho que faz sentido as pessoas fazerem essa pergunta. Isso provavelmente deve-se ao facto de nós sabermos (também) instintivamente que mães devem estar perto das crianças ao mesmo tempo que sabemos que, se o pai não está por perto (se são casados), provavelmente está a trabalhar para a família.

Eu sinceramente ficaria chocado se por acaso Portugal chegasse a tal declínio moral onde as pessoas já nem fizessem a ligação entre uma criancinha e a sua mãe (para lá caminhamos. Obrigado BE/PS/PSD/CDS).

Por mais engenharia social que se faça, a psicologia humana está bem ciente que a figura primária dos primeiros anos da vida duma criança é a materna.

A tristeza do esquerdismo, ao promover o aborto, divórcio fácil (fácil para os adultos, não para as crianças) e practicamente forçar as mulheres para o local de trabalho, está a gerar gerações de mulheres totalmente stressadas e esgotadas e em busca do "sentido da vida".

Ainda no outro dia estava a falar com uma amiga minha brasileira e no meio da conversa - practicamente do nada - ela começa a chorar. Eu pergunto o que se passa, e ela diz que não aguenta a pressão da vida. Acorda às 5:30, leva o filho para a escola (depois de lhe preparar o peq almoço e tudo o mais), vai trabalhar até tarde, volta tarde, vai buscar o filho aos paus, prepara-lhe o jantar, o banho etc, e dorme a altas horas. Oh, é divorciada, obviamente.

Voltando ao assunto; eu pessoalmente, acho bem que as pessoas identifiquem os anos mais tenros do ser humano com a presença da mãe. Significa que ainda há esperança para Portugal.

FireHead disse...

Não é por causa desses pequenos pormenores de matrilinearismo, que são autênticas excepções à regra, que fazem com que Portugal deixe de ser um país machista como ainda é.

Ana disse...

Querido Martini esse é só mais um dos muitos preconceitos que temos por este país. Temos uma mentalidade muito pequenina.

Utena disse...

E viva a pequenez da mentalidade.
Palavra de honra que quanto mais passo o tempo mais se regride

Beijo

AC disse...

Nos meios rurais pequenos é frequente fazer esse tipo de pergunta em jeito de coscuvilhice, para querer saber mais...mais pormenores da vida de cada um, e está de tal modo enraizado que não é feito com malícia:)

Victória J. Esseker disse...

[eu sei que é muito indelicado da minha parte isto, mas estou a avisar aos meus seguidores que mudei a url do blog sendo agora http://adolescentia-est-futui.blogspot.pt/ e para receber as atualizações é necessário deixar de seguir e voltar a seguir, então já sabem :D Se tiverem moderação não publiquem, se não, simplesmente apaguem]

Victória J. Esseker disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Martini Bianco disse...

Lucas,
Neste ponto já discordo em parte com a tua opinião.
Acredito que o divórcio torne ambos os divorciados, mais pobres, mas isso não explica tudo, nem mesmo esta situação, e se explica é porque realmente algo vai mal na sociedade.
Eu sei que a figura maternal é mais importante que a do pai nos primeiros anos, mas é lamentável que ainda se façam perguntas deste teor em pleno século XXI.

Já agora por que é que não incluiste o PCP na manada dos partidos do sistema?

Martini Bianco disse...

Firehead,
Portugal ainda pode ser mais machista que feminista, mas por este andar, para lá caminha.

querida Ana, infelizmente isso ainda é uma realidade, mas que em alguns pontos eu vou lutando contra, postando este tipo de coisas.

Utena,
Realmente nem sempre que o tempo avança significa um progresso. Socialmente cada vez mais noto regressões.
beijo

Martini Bianco disse...

Ac,
Lol... Se é feito com malícia ou não ainda não consigo detectar. Depende de cada caso, mas era melhor que essa gente se dignasse ao respeito de quem não conhecem e não fizessem esse tipo de pergunta.

victoriazeca,
Qual indelicado? :) Eu sigo-te por qualquer link.
beijoca

José Freitas disse...

Este blog tem muito interesse.
Vejam também www.anticolonial21.blogspot.com

Carolina Tavares disse...

Não é o que acontece no Brasil, ao menos nos grandes centros. Os pais estão muito participativos. O meu irmão que é divorciado já fez inúmeras viagens com minha sobrinha e nunca se queixou. Ele mora em Brasília. Por aqui no Brasil só acontece este tipo de coisa em cidades do interior (interiorzão brabo mesmo), porque nos grandes centros este comportamento é totalmente ultrapassado, não existe isto por cá nos grandes centros.

Pais vão buscar os filhos na escola. Tem pai que é quem está ali no dia-a-dia, pois a mãe tem carga horária mais acirrada. Os homens entram na sala de parto, ou da cesárea e participam. São muitas vezes os pais que vão as reuniões da escola, ou intercalam com as mães. Levam os filhos no pediatra, jogam futebol com o garoto na quadra, no campinho... os pais aqui são como a propaganda do Gelol, ¨não basta ser pai, tem que participar.¨ Agora há os alienados, que não querem ocupar este lugar ou que as mães não permitem que ocupem também. É sistêmico, sempre. Nunca são 100% de um lado. Ambos são responsáveis pelo processo.

Catarina disse...

Hum... Mas as senhoras conhecem-te? Se não te conhecem e conhecem a tua irmã, ao ver um desconhecido (numa zona onde pelo que entendi as pessoas se conhecem mais ou menos de vista) não vejo preconceito, vejo preocupação ou coscuvilhice no sentido de saber quem tu eras.

E não, não acordei com a mania do contra, só estou a avaliar a questão de outra perspectiva, em relação a essa situação em concreto.

Eu sei que de um modo geral esse preconceito existe, e não acho que seja só nas zonas mais pequenas, nas cidades também acontece a diferença é que dificilmente alguém te dirige palavra, uma vez que ninguém fala com ninguém.
Hum... Por curiosidade tratarei de perguntar ao meu pai, se alguma vez lhe fizeram essa pergunta quando saiu com a minha irmã sem a minha mãe.
Bom fim de semana

Martini Bianco disse...

Carolina,
Como em todos os casos existem excepções e é triste verificar que neste caso são as próprias mulheres a fazerem esse tipo de questão nada ingénua, o que só vem a confirmar a minha teoria que que pior que um homem machista é uma mulher sexista, aquela que pensa que ambos os géneros devem somente ser e desempenhar os seus papéis mais básicos e tradicionais.


Catarina,
A que me fez essa pergunta julgo que não e eu nunca a vi nem mais gorda nem mais magra, mas certamente que deveria ser uma cusca do pior.

É por isso que eu prefiro a cidade, visto que tb nao gosto de dirigir a palavra a ninguém.
Gostaria de saber isso mesmo. Nada pior que um "pai" ser visto pela populaça como "avô".

Catarina disse...

O meu pai passar por avô? Ainda que a minha irmã nascesse agora ao invés de à 8 anos atrás, os meus pais ainda não passam por avós. Eles ainda são novos no BI e na aparência, eles encomendaram-me cedo à cegonha :)

Geralmente quando a minha irmã está com a minha mãe, perguntam-lhe pelo pai, e quando está com o pai perguntam-lhe pela mãe, mas no sentido de saber se está tudo bem (outras vezes num sentido de coscuvilhice).

Este fim de semana vi uma senhora branca para aí com a idade da minha avó a passear num carrinho de bebé um bebé pretinho, se fosse numa aldeia de certo lhe perguntariam pela mãe :p

Na cidade não te abordam, mas isso não implica que não exista preconceito, nunca sabes quando não vai um blogger escrever um post sobre o que fizeste na rua ou afins (recordando um post em que relatavas um casal na rua com alguma diferença de idades em estado de pura paixão explícita :p)... eheheheheh sorry ;)

Beijocas

Mariza (P.Gira) disse...

A minha avó, que nasceu no último ano do primeiro quarto do século passado e morreu no último ano do quarto quarto do mesmo, sempre disse que a uma criança (quando não estava presente nenhum adulto responsável por ela) nunca se devia perguntar quem era o pai, mas sim quem era a mãe. A razão por ela evocada para tal era simples, esta era a única certeza que um filho poderia ter (atendendo à época até é lógico).

Dizia-o sem qualquer preconceito já que ela teve 5 filhos, todos fruto de relações distintas, sendo que dos 3 que chegaram à vida adulta (que foram as mulheres) só uma foi criada por ela. As outras ela teve a 'coragem' de as deixar com os pais, porque os sabia capazes de lhes oferecer uma infância melhor. Vivendo num arquipélago e cada uma numa ilha distinta nunca perderam o elo de sangue que as unia e o conceito de família. Ainda hoje, as 2 que resistem, nomeadamente a minha mãe, são o apoio diário uma da outra.

Por este exemplo de família, não vejo nenhuma incapacidade ou anormalidade em um homem ou uma mulher terem à sua exclusiva responsabilidade uma criança e muito menos me passaria pela cabeça andar pela rua a fazer uma pergunta desta natureza.

Martini Bianco disse...

Catarina,

Mas eles perguntam essas coisas aos teus pais, porque conhecem-nos a ambos. Eu falo nos casos em que não se os conhecem, como acontece nestas situações fortuitas, a tendência é sempre perguntar pela mãe.

Quanto ao teu ultimo parágrafo, nada mais certo. Ainda bem que certos casos que relato são sobre desconhecidos e se o fizessem sobre mim, era bom que também não me conhecessem. Ou será que só eu e outros visados é que temos histórias que dariam posts escabrosos à escrita de outras pessoas?! :) Um bom assunto, sem dúvida.

Martini Bianco disse...

Mariza,

Bem aparecida :)
A minha avó também nasceu nesse mesmo ano e felizmente ainda está viva.

Não deixa de ser contraditório esse tipo de pensamento da tua avó, atendendo à época que se vivia e creio que para ter sido assim, talvez fosse bem frequente isso acontecer nesse arquipélago. Nada contra, pois acho que mesmo assim, ninguém melhor que as mães sabe o que é melhor para os filhos, mesmo que o futuro deles venha a ser longe delas.
Este tipo de posts que tneho vindo a fazer são mais contra o preconceito mental que as pessoas ainda têm, do que propriamente uma crítica às mulheres.

Catarina disse...

Chegaste ao ponto que eu queria que chegasses, as senhoras podem ter-te perguntado isso, porque não te conheciam e te viram com uma criança que conheciam.

Quanto a isto: "Ou será que só eu e outros visados é que temos histórias que dariam posts escabrosos à escrita de outras pessoas?!"

Toda a gente tem sempre alguma a dizer, o facto de falares de pessoas que não conheces não faz com que deixemos de ser preconceituosos.

Eu daria um óptimo post de escrita preconceituosa...
Vê lá tu que até já me acusam de ser homem só porque não apoio coisas como marchas das vadias, isso também é preconceito certo? :)

Um óptimo assunto

Nas aulas de bioética o professor (um gajo com 50 anos muito enxuto charmoso e cativante :p ) dizia que todos temos preconceitos. Podemos é não assumi-los. Mas ter preconceito ou discriminar são conceitos diferentes... Não me vou alongar sobre eles porque qualquer dia expulsas-me daqui :p

around the world

Geo [01-07-2012]