Olhei à minha volta e depois para mim. Pensei no porquê de reavivar almas penadas, de inconscientemente reabrir casos encerrados e então cheguei à conclusão que devem ser necessários para alguma coisa, talvez para uma melhor reflexão e compreensão dos fenómenos que acontecem comigo ou então não sei como o diagnosticar.
Ontem saí um pouco à noite e fui dar uma volta. Noite parada, uma compra efetuada e quando olhei para o relógio eram quase duas da manhã. Voltei para casa e liguei o computador. Dei ordens para que Yiruma começasse o concerto, nas suas teclas que me soam como pingos de chuva, essa mesma que anda tímida lá fora. Yiruma faz-me levitar um pouco sempre que o dia é pesado, faz-me esquecer momentaneamente tudo ao meu redor e foi nessa conjugação de "Yiruma" com "esquecer" que me lembrei que há cinco anos atrás neste mesmo dia fui a outra parte de uma belíssima noite contigo, perdão, que ela nunca seria tão bela como tu; uma noite por entre tantas outras ensombrada por chuva e nevoeiro. Era o dia do teu aniversário e ainda me recordo do que te ofereci. Gostaste da prenda embora não garantisses que te ficasse bem e preferiste o postal que eu fazia questão que não o lesses na minha presença mas que a tua espontaneidade e ansiedade não o permitiram. Nesse postal não sobrava nenhum espaço em branco. Tenho uma péssima relação com os postais. São sempre pequenos de mais quando há tanto para dizer. Tanto que tinha para te dizer.
"Homens são mares de água salgada, mulheres são rios de água doce e tu o açúcar dessas gotas" [No postal] lamechas, mas talvez seja o que Yiruma também quer dizer, ao som do piano.
As estações sucederam-se, alguns anos passaram-se, as ameaças sobre o fim do mundo continuam a pairar mas eu sou um espécime que não esquece datas nem momentos importantes de uma vida banal por menos que signifiquem no calendário dos outros, pois no meu continuam a significar alguma coisa. Continuo por aqui, sei por onde andas e tinha forma de te enviar estes parabéns mas não encontrei motivos para tal, pois aprendi que quando o Homem cá em baixo faz planos, Deus lá em cima ri-se e Ele já se riu demasiado dos meus planos. Dos nossos planos e também por aqui a vida tem-me ensinado a mudar de atitude face aos períodos ora doces ora amargos desta odisseia, o mesmo que dizer que mesmo que esta relação tenha terminado de forma abrupta aprendi a aceitar que existem amores que são para sempre, como é este que sinto por ti, tenha a forma que ele tiver hoje em dia e mesmo que seja somente uma sensação unilateral. Não me importo. Convivo bem com isso e hei-de recordar somente o bom e esquecer o mau, porque o mau é o abrir uma cova no cemitério do sentir, onde lá dentro só existem sonhos mortos e o que revivi a noite passada ao escrever isto foi um sonho intenso, de vida e amor e é com essa sensação que quero sempre ficar quando me vieres à memória. Não sei se alguma vez me habitou, mas se sim, o rancor é algo que tenho expulsado de mim a cada dia que passa e isso torna-me mais leve e íntegro.
Neste momento também penso no quanto é compensador pensar em alguém que nos deixou uma marca sobretudo positiva, algo raro nos relacionamentos que terminam, pelo menos os que eu vejo à minha volta.
Parabéns por mais um aniversário, onde quer que estejas. Dedico-te Yiruma, porque a música era também um dos nossos elos mais fortes, algo indissociável de ti e os meus gostos ainda são uma marca tua que ficou em mim a juntar ao Martini e ao Gin tónico.Neste momento também penso no quanto é compensador pensar em alguém que nos deixou uma marca sobretudo positiva, algo raro nos relacionamentos que terminam, pelo menos os que eu vejo à minha volta.
23 ecos:
Como sempre belo.
Vou ¨voltar¨ na Primavera e eu levarei terra nova daqui, voa, voa que eu chego já.
Este ano começarei a girar a Galera, e a virar meu coração navegador... mar bravio, mar bravio... me aguarde estou a chegar.
Beijos
http://www.youtube.com/watch?v=8pHUj_bGi40&feature=player_embedded
Ler-te assim, fez-me lembrar disso (http://procura-de-luz-natural.blogspot.com/2011/04/porque-nao-reeditado.html).
Uma viagem nostálgica ao passado, desde que não se fique preso por lá, faz bem. Alimenta a alma e relembra-nos que há pessoas que mesmo tendo saído da nossa vida, continuam a ser importantes pelo que nos trouxeram e pelo que nos transformaram.
Há duas formas de encarar estes fins, com ressentimento, guardando apenas o que de mau nos marcou (e quase sempre está relacionado com o fim, interiorizando que tudo foi uma total perda de tempo) ou com apreço, destacando o que de bom nos ficou gravado na pele (esta via, por norma, só surge quando nos apaziguamos com nós mesmos e com os nossos sentimentos).
Optando por esta segunda via conseguimos sempre estar abertos ao sentir.
Carolina: É uma bela música. Não conhecia.
Bjs
Mariza: Pois é. Eu já nem me lembrava bem desse post mas até o comentei duas vezes. Pelo menos comigo esta já não é a primeira vez que isto acontece, e concordo que tem haver com a apaziguação do sentimento, porque por mais que pense assim hoje, sei que também houve um período de tormenta.
Fiquei emocionada ao ler estas tuas palavras, Martini. Pareceu-me tão doído e ao mesmo tempo saudoso para ti. Lindo demais o que escreveu. Parabéns!
Abraços.
Comigo também não foi a primeira vez, este texto que comentaste já tinha sido publicado pelo menos 2 anos antes, sendo que também já tinha sido escrito muitos anos antes dessa primeira publicação (após a viragem do milénio).
O que despoletou o texto original foi uma conversa entre um amigo em comum que veio como mensageiro entregar o convite. Nessa época, como ouvir o nome dele ainda mexia com os sentimentos que tinha acabado de arrumar, recusei a custo.
E ao longo dos anos outros convites (já feitos directamente pelo interessado) têm surgido ocasionalmente, sendo que a única coisa que se alterou desde o primeiro convite foi o motivo da recusa (que é o que escrevi no texto).
As pessoas e as relações têm o seu tempo e o seu espaço. O facto de alguém ter ocupado um lugar importante na nossa vida e reconhecermos isso perante nós e o próprio, não nos obriga a querer que ou a ter que aceitar revê-las. Enquanto tivermos a capacidade de viajar pelos caminhos da memória, não é esta recusa que vai apagar o que nos foi marcado a tinta transparente na pele. Já que são estas marcas invisíveis ao olhar dos outros que não nos deixam esquecer quão importantes foram.
Meu amigo, acho que estou a ficar como tu. Isto pega?
Beijos
As tuas dedicatória são sempre de fazer cair o queixo.
Belíssimo.
Gostei deste texto...muito.Gostei de sentir a sensibilidade, e a saudade que por aí anda, e gostei de saber que nas tuas memórias de uma relação que acabou é possível, encontrar muitas coisas boas.
Eu sou assim, não falo mal do passado,e não recordo as coisas más, só as boas, que me preencheram e me fizeram feliz.
"Persisti na raiva é como apanhar um pedaço de carvão quente com intenção de o atirar a alguém.
É sempre quem levanta a pedra que se queima..."
Dalai Lama
Beijo* Martini
Pat: Fico feliz que assim tenha sido. Bjs
Mariza: uii... Mensageiros é que não. Detesto pombos-correio. Compreendi tudo e também partilho dessa opinião.
Quanto ao teu último parágrafo poderia muito bem figurar neste post também, porque eu não referi isso mas dei a entendê-lo.
Carolina: Hein? Não sei se pega ou não mas se for uma coisa boa, sim que pegue. :)
Marta: É apenas mais uma partilha, banal como todas as outras, mas fico contente que te tenha sortido esse efeito.
bjs
AC: A saudade reavivou ontem, quando me lembrei que dia era e eu sou alguém que gosta de recordar especialmente os momentos bons e a marca dessa pessoa foi muito positiva na minha construção.
Excelente frase. Desconhecia mas sou totalmente apologista.
Bjs AC Girl
Há coisas que não têm de ser óbvias para as percebermos :)
Ui! Estou a ver que nisso somos parecidos...
O passado, tão distante e tão presente, tantas vezes tão teimoso, obrigando-nos a ter memórias do que já passou e não volta jamais. As recordações, essas, são eternas e connosco hão-de morrer, para o bem e para o mal. Mesmo que do outro lado isso nem lhe passe pela cabeça e ainda que possa estar a sorrir nos braços de outrem, braços esses que outrora foram os meus.
Saíste-me cá um melodramático lamechas viajante do tempo! Tal como eu, aliás. Felizmente progressos estão a ser feitos, pois viver o passado implica deixar de viver o presente e o presente tem precisamente o nome que tem por algum motivo.
Já conhecia esse som do Yiruma... mas fez-me bem escutá-lo de novo. Domo arigato gozai mashita, Yiruma-san!
Que amor do passado tão aceso... Consegues viver com isso? Um tal fantasma que te faz escrever algo assim?*
Meu caro,a tua escrita de banal não tem nada ;)
Beijos
As memórias tem dessas coisas... melhor quando são escritas por quem as sabe descrever...
Lindo.
Obrigada por nos dares textos assim
Mariza: Eu sei que para ti, meia palavra basta para entenderes :)
Catarina: Não está aceso, foi apenas reavivado momentaneamente. Consigo viver com isso e como escrevi, até convivo bem com isso. E se um fantasma me faz escrever assim, imagina um vivo?! :)
Marta: Deixas-me sem palavras. Bjs
Utena: Por aqui nada é obrigado, é sempre por boa vontade :)
Gostei mesmo muito da tua resposta! Vou guardá-la para mim :)
Que texto triste, apesar de belo. Gosto dessa tua relação com os postais, sempre pequenos. :)
Esse eterno resto do que não dizemos...
Todos tempos histórias, memórias, datas... E é bom recorda-las, até falar nelas, desde que não façam mal ao nosso presente.
De facto é de louvar um relacionamento que terminou e em que fica uma marca positiva... É bom, é sinal que tudo valeu muito a pena.
Tudo na vida tem data limite... Até nós mesmos :)
Beijinhos querido
Catarina: Na boa!
S: São sempre pequenos, para quem nos diz muito.
Vanessa: Disse o importante...
Lu!: Isso não me perturba minimamente o presente, basta apenas não fazer comparações algumas e estar grato com o presente. E não foi nada fácil de inicio. Foi muito doloroso, mas para a história fica isto, que acima de tudo foi o mais importante.
nossa, eu sabia q vc estava bebado quando escreveu isso. na última linha veio a confirmacao.
mas é claro. nao deixa de ser belo o que escreveu e a alma sensivel que tens.
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