Foi a segunda vez em menos de duas semanas que estive no hospital. Alguns excessos, mais o nomadismo excessivo em alguma coisas, viagens, noites mal dormidas, frio a rodos, etc e etc trazem sempre alguns problemas consigo e existem alguns que não consigo ultrapassar por mim próprio nem com a minha própria medicina. Uma infeção pulmonar não é fácil. O sistema respiratório, o meu tendão de Aquiles desde criança voltou a atacar.
Continuo a não gostar de hospitais, um local onde certa vez, num misto de oportunismo e necessidade trabalhei durante um mês no ido ano de 2007 nas urgências do mais movimentado hospital do oeste londrino e onde vi coisas que nunca pensei poderem ser uma realidade pelo menos aos meus olhos. Era um estafeta naquele local e o contrato era esse mesmo, renovável month by month. A minha função era transportar pacientes de um andar para outro e transportar análises/amostras de sangue, urina, etc de um departamento para outro no Charing Cross Hospital nessa bela localidade de Fulham de onde surgiu amor especial poe esse lugar, chique, do oeste londrino embora eu não morasse num local digno desse nome. Criei o mesmo amor pelo clube da zona, o meu Fulham FC, onde um dia perdi esse mesmo amor por 80 libras e levei o meu amor da altura a ir ver um jogo de futebol para a FA Cup, a famigerada taça de Inglaterra, ela que era torcedora ferrenha do Grêmio de Porto Alegre a ver o Fulham levar três secos do Liverpool naquele estádio em que ambos dizíamos mais se assemelhava a um estábulo de cavalos que propriamente a um estádio de futebol.
Nessa altura tive que optar pelo hospital porque na altura queria e fiz um curso de Cabin Crew e Airport Services Agent, por causa da minha paixão pelos aviões e pelos voos, curso esse que nunca apliquei na realidade por não compensar o trabalhar em terra. Como o hospital era só atravessar a rua era apenas um pulo logo ganhava tempo. Estudava das 8.30am até as 14.30pm e depois entrava no hospital as 4pm e saia à meia-noite. Foram tempos difíceis que não recordo com muita saudade mas que muito contribuíram para aquele ser que sou hoje.
Certa noite transportei uma mulher jovem, talvez da minha idade na altura, uns 25/26 anos, do rés do hospital para o 4º andar para a área da "segunda" cirurgia, como o pessoal do hospital chamava àquele local. Tinha tido um acidente de viação gravíssimo. Nos elevadores muito espaçosos como em qualquer hospital capazes de transportar macas, olhava para ela, junto com o meu colega de serviço polaco. Ela inconsciente e anestesiada com vários canos ligados ao nariz e um introduzido algures no pescoço coberto de pensos, fora todo o sangue à sua volta não apresentava reação alguma. Nesses momentos lembro-me de ter ouvido dos médicos num sotaque australiano dizerem "se esta sobriver, nunca mais andará". Voltei a olhar para ela. Era jovem, semi-loira, traços faciais belos e com alguns requintes posh pelas pulseiras, colares e enéis que me recordava de lhe terem retirado do corpo e colocado na sua mala durante a reanimação. Reflecti na impotência do brilho face à fatalidade mas não sei o que lhe aconteceu após isso. Espero que tenha sobrevivido, que um milagre tenha acontecido e que seja uma mulher feliz nos dias de hoje.
Terminado aquele mês e aquele curso voltei para os hotéis. O hospital não era local para mim. Sentia-me melhor nos locais de turismo e lazer onde por vezes até me divertia, onde bebia chardonnay durante a noite, onde dava conversa a turistas e onde gostava mesmo de trabalhar, e já com o curso feito tentei esquecer aquele e outros episódios ainda mais traumatizantes que um dia talvez conte por aqui. Sei que coincidiu com esse Natal onde só vi dor e morte à minha frente.
Tudo isto para dizer que neste Natal e ao fim de quatro anos, por várias razões, voltei a passa-lo com a família que me é mais próxima. Sou fruto de famílias que o destino e as opções de vida as fizeram se separar, razões essas que não sou culpado mas sempre apanhei por tabela e gostei especialmente de rever a minha avó materna que tem 85 anos e está cada vez mais debilitada. Entristece-me vê-la assim porque é a mulher que mais admiro na vida, muito mais que a minha própria mãe. Criou dois filhos sozinha, foi sempre uma mulher corajosa, nobre e brava ou não fosse uma leoa de Agosto, que trabalhou em sanatórios para poder sustentar os filhos sozinha e que ainda assim manteve as suas hortas onde trabalhou quase até aos 80 anos, fora os bordados em que era mestre e os bordou até não poder mais. Uma cidadã nobre, uma profissional competente e uma artesã por amor.
Hoje anda pelo seu pé mas com alguma dificuldade, lamenta-se imenso e eu sei o que lhe dói; mas mais que as dores reumáticas sei qual é a sua verdadeira dor; aquela de quase já não poder sair de casa, a dor de não ser autónoma como sempre o foi, a perda da sua marca de existência, a sua força. Nestas ultimas noites que passei com ela preferi ouvi-la do que lhe contar o que quer que fosse. Ofereci-lhe uma prenda simbólica como sempre o fiz. Quando era puto oferecia-lhe sabonetes porque não tinha dinheiro para mais, eles eram baratos e ela sempre cheirava muito bem logo nunca pensava em lhe oferecer outra coisa, tinha que ser algo algo que cheirasse tão bem como uma rosa, o seu nome. Desta vez ofereci-lhe uma chávena, ilustrada com uma ovelha sorridente e trocista dizendo "És a melhor avó do mundo" e isso fê-la sorrir, mesmo com poucos dentes que mantém, mas na imensidão dos seus olhos azul-mar penetrantes capazes de abraçar tudo à sua volta.
E quando voltei a ver alegria naquele rosto aquilo soube-me a vida.
Uma vida tão grande, tão maior que a minha.
Uma vida tão abrangente, repleta de feridas e cicatrizes mas onde o sorriso venceu.
E nesse momento... senti pena de mim.
16 ecos:
Martini, não acho que tenhas motivos alguns para ter pena de ti próprio. Alguém que se sente com a dor dos outros, é alguém com um grande coração. Quantos não são os que, tal como tu, conviveram de perto com a morte em hospitais e mesmo assim conseguiam desligar em automático?
Tenho a certeza que a tua avó tem muito orgulho em ti.
Uma linda homenagem à tua avô, acho que me tocas-te bem cá no fundo sabes? beijo enorme e um excelente 2012 para ti!
Ana: REferi ter "pena de mim" por ver o sorriso e uma certa felicidade naqueles que sofrem dores todos os dias, quando comparados comigo que raramente sofro de alguma coisa e talvez nesses dias ainda me queixe mais que eles. Foi só por isso.
Poetic Girl: Obrigada. Desejo-te o mesmo e que 2012 te traga somente coisas boas, poucas lágrimas e muitos sorrisos.
Muito bonito, Martini. Tiro-te o chapéu. Conseguiste num texto ser sucinto falando de coisas que mexem contigo.
Também não quero nada com hospitais e graças a Deus tenho tido sempre uma saúde de ferro. E o facto de ser ajuizadinho neste aspecto também me tem evitado muitos possíveis dissabores que eu vejo muito entre a malta da nossa idade (30 anos) e mesmo mais nova.
Eu pelo menos tenho o sonho de chegar a velho e poder ter, tal como a tua querida avó (e também a minha, já agora, com mais de 90 anos e com uma cabeça perfeitamente lúcida), poder olhar para trás e ter muitas histórias para contar.
Posto isto, só tenho uma coisa a dizer a todos: estimai a vossa vida, pois ela é única.
Abraço.
Gostei muito deste teu texto...Revelas muita sensibilidade, e capacidade de entrega, digo-te já que davas um excelente profissional de saúde. Embora vejamos dezenas de cenas quase todos os dias como a que relataste no hospital inglês, continuamos a comover-nos, a sentir pena, e frequentemente as lágrimas vêm-me aos olhos...porque pensas que eu sou como sou, meia maluca, desligada, aventureira, etc, etc...porque é a maneira que eu encontrei de me alhear do que vejo e defender-me do que não quero.
Mimaste a tua avó, fizeste-a feliz...e foi a maior alegria que lhe podias ter dado.
Esse é o verdadeiro espírito do Natal:)
Beijo* Martini Boy
E melhoras rápidas!
Fizeste-me chorar e manter em todo o texto um sorriso nos lábios.
Obrigada por dividires isso...
Do fundo do coração.
Beijo
Martini,
O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos.
Faço votos que o 2012 nos permita sonhar e concretizar cada um deles.
Um Próspero Ano Novo.
Beijnho e as melhoras.
Que lindo o que sentes pela sua avó. Não sejas tão melancólico.
ps: Mas onde conheceste essa guria gremista, hein?
Firehead: E é bom que o pessoal se vá tratando o melhor que pode e o quanto mais cedo, que aquelas esperas intermináveis nos hospitais mais certas coisas que por lá vemos, não motivam ninguém nem ajudam à recuperação.
Desejos que a tua avó também continue a durar :) Obrigado pelo conselho final.
Abraço
Ac: Obrigada. Não sei se daria um bom profissional de saude, teria que ter estômago para me abstrair de certas coisas e acho que não tenho esse talento, dai que entendo bem a loucura que falas dos profissionais de saúde para terem de lidar com essas situações diariamente e conseguirem ter uma vida normal. Mantém a tua dose, porque é uma auto-defesa melhor que qualquer vacina :)
Quanto à minha avó espero que não volte aos hospitais que aquilo sim dá cabo dela.
beijos AC girl, já estou a 100% :)
Utena: A intenção nunca é de fazer ninguém rir ou chorar. É apenas um relato. Provocou-te sentimentos contraditórios, mas isso nem sempre é mau.
beijos e um grande ano para ti :)
Marta: Que bela mensagem. Obrigada. Desejo-te o dobro para 2012.
Beijinho.
Cherry: Conheci-a em Londres, numa academia. Foi um amor à primeira vista, que durou aquilo que tinha que durar. Infelizmente a vida, as opções, os terceiros baralham-nos as contas e os sonhos e ela teve que voltar para ai e eu fui burro em não ter acedido ao que ela me propunha - para ir com ela. E agora já não há nada a fazer, porque o tempo cura tudo mas também mata o restante.
Quando escreves assim não há margem de manobra possível para não despertares emoções em quem te lê! Mau seria se não as despertasses, não chorei nem ri, mas fiquei arrepiada! Grande senhora a tua avó que me fez lembrar a minha bisavó que tive o prazer de conhecer, essa que criou 7 filhos sozinha depois de ficar viúva pouco tempo depois de nascer a última filha, e que ainda assim tinha uma manta quente para dar a quem precisasse e à sua maneira foi feliz...
Quando não sabemos dar valor ao que temos, aí sim temos razões para ter pena de nós próprios!
Um belo texto!
Beijo*
Espero que fiques curado logo desta lida de hospital!
Quanto a sua avó, sabes bem o que penso sobre estas doces criaturas que são 100mil vezes mãe. Achei lindo o que escreveu sobre ela... eu também dava sabonetes à minha quando era uma miúda ;) era só o que os trocados podia pagar, mas sempre com Amor. O mesmo sentimento que tens por tua vózinha é o mesmo que tenho pela minha...
Um Abraço, Martini.
Há textos teus que gosto mais que outros, e este são um deles.
Não conheci a minha avó materna, mas tenho o nome dela. Conheci minha avó paterna, que me paparicava, pois meu pai era-lhe o filho predileto, o primogênito e aquele que havia sobrevivido às perdas anteriores.
Quando eu ficar velhinha eu sei que sentirei o que a sua avó sente, a dor da impossibilidade de fazer... Sua avó é uma mulher guerreira, bom de tê-la por perto, certamente um lindo exemplo.
Carinho meu e beijinhos bem pequenininhos, e um Bom Ano para ti.
Odeio os casos das pessoas que tem acidentes e ficam paraplégicas/tetraplégicas/completamente paralizadas. Odeio mesmo, uma vez vi um filme dum homem tetraplégico a pedir a eutanásia e fiquei muito tempo a pensar nisso traumatizada. É que é tão frustrante não haver uma cura e todos andamos na estrada. Arg, odeio tanto isso.
Oh não tenhas pena de ti porque quem tem penas são as galinhas.
Uma boa passagem de ano e um bom 2012 :D
Catarina: Espero é que as emoções sejam sempre boas, pois nem sempre os feed backs são assim.
A minha avó tal como a tua bisavó são daquelas mulheres que já não se fazem, tal como houve no passado muitos Homens com H grande que também hoje em dia já não se fazem, por isso há que lhes fazer um tributo merecido.
Bjs
Pat: Já estou a 100% e concordo contigo, avó é 100 mil vezes mãe.
Abraço e que tenhas começado o novo ano em grande :)
Carolina: Obrigada.Sem duvida que a impossibilidade de fazer, a impossibilidade da sua liberdade é aquilo que mas lhe dói. Muito mais que as dores reumáticas.
Beijos e um grande ano para ti :)
Victoria: Compreendo, e só corrijo uma coisa. Tenta evitar a palavra "odeio" e "ódio" nos teus comentários, pois sei que não é a palavra certa que queres usar, até porque ninguém gosta de ver paraplégicos/tetraplégicos pela frente.
Um grande 2012 para ti também.
Postar um comentário