Fim de tarde de 1º de Maio. Na rua, esquerdistas mais os seus capangas sindicalistas radicalizam o discurso. Falam pelos trabalhadores mas não se vê ninguém a trabalhar. Por culpa deles adio a minha saída para o crepúsculo. Quero sair bem-disposto.
***
Entretanto amanheceu e dizem ser 2 de Maio. O mundo sai da toca por entre neblinas e raios de sol e as formiguinhas já se movimentam na rua em grande azáfama. Não é o dia do trabalhador mas parecem ir trabalhar. Apago isso da memória e foco-me em mim onde prevalece o teu odor, húmido, estranho sabor a maresia, a caranguejo, tal como os videntes das estrelas te classificam, é na roupa, é no pescoço, é nos lábios, é nos dedos. Ficou tudo aqui e no ar já sinto a conjugação para que o simultâneo continue pelo resto do dia porque o dia nasceu e ela não parece não ter vontade de ir. Tem tiques de Cinderella, ou chega a casa antes da meia-noite ou então no dia seguinte quando a tarde já vai dizendo adeus. Dormir junto também faz parte disto, diz-me constantemente. Nem sempre convivo bem com esse lado.
Vou ao encontro de uma cigana que já conheço como o baralho de cartas. Alguma saudade condimentada com outras doses mais complexas são o meu combustível. Li há tempos que é necessária alguma loucura (e incongruência) para manter a sanidade e busco-a pelo crepúsculo da tarde.
A noite já caiu há muito e perdi a noção das horas. Caxias, a do famoso forte, da prisão, dos presos políticos é o cenário. Na rua o pó inquieta-se e voa do chão ao céu, em dirty dances, capazes de varrer tudo à volta, tudo excepto os cães vadios, que já se adiantaram naquilo que eu pretendo que a minha noite termine.
Espero. Espero. Espero.
Chega atrasada, como é costume para me contrariar. Desta vez não posso dizer nada. É sensato não provocar a lava de um vulcão. Avisto-a ao longe, vem leve, vestidinho colorido de verão, casaco de algodão, maravilhosa pele tostada, aparentemente um bom indício mas que pode contrastar com o que vai lá por dentro. Precaução.
O abraço é contido e sei que demorará tempo a que o gelo se quebre. Aproveitamos a longa Marginal para um passeio noturno. É necessária uma via dessas para as muitas coisas que tenho a dizer, mais que ela, que sei aguardar pelo momento certo para disparar o que lhe vai na alma. Acontece um pouco depois. Nada bonito mas eu alieno-me e anestesiado no quebra-gelo de alguns meses de ausência, olho-a e sinto vontade de a propor ao Bigas Lunas, caso ele não tivesse morrido mês passado, como estrela ingénua e trémula num certo filme dele, que se fosse mulher da vida, abriria uma excepção aos meus princípios e propor-me-ia ser seu cliente. Não lho disse com estas palavras mas sei que a mensagem passou. É muito desejo.
Deixo que esgote as palavras e que o gelo vá derretendo as pedras interiores. Espero pelo cansaço para que possa desbravar caminha para toque tímido, dois, três, sucedidos por abraços longos, respirações sentidas, rumo ao silêncio. Chegam tarde mas chegam. Num modesto carro e após lhe oferecer uns souvenirs que trouxe de longe, prontos a amolecerem um coração que já é mole por natureza, tudo termina de forma expectável ainda que contornos sempre novos. Vida!
O resto não interessa ao leitor porque esta relação é uma mousse de imprevisibilidade com vários contornos pouco ortodoxos na ação. É fruto de necessidades várias, sobretudo de compreensão e essas ficam para mim. Sei que deixa os vidros totalmente embaciados e os dois errantes exaustos. A ergonomia dos carros ainda não pensa em tudo. O rescaldo é ótimo e ao som do que ela mais gosta de ouvir no momento. Positivo.
Quase tudo foi feito, quase tudo foi dito, quase tudo porque sei que há coisas que não dirá mas que sente, já o percebi há muito. Que odeia pelo menos uma das minhas vertentes - um pretenso domínio psicológico e manipulativo que diz existir, mais o facto de nunca a levar a sério e depois ter de a procurar, usando golpes que nem são propriamente a minha forma de ser nem estar que me descaracterizam por completo mas me fazem voltar a sentir o sangue. O saber que não consegue ser ela própria comigo, pelo menos desde o dia aceso em que a comparei a um limoeiro e que um limoeiro nunca daria laranjas, logo de seguida arrependendo-me porque muitos dos desejos e outras necessidades de compreensão que tenho serem possíveis com ela e não serem possíveis com outra pessoa que paira neste capítulo da minha vida. E que evita dizê-lo na cara. Ao invés, vai-se mantendo por perto, no limiar da segurança, no verso, nunca fechando a porta definitivamente, aproveitando o lado menos ruim que há em mim, que certamente lhe deve dizer alguma coisa. De outra maneira não existirá explicação. Sem juras, assinaturas e formalidades talvez seja esse o segredo desta ligação de carinhosa pimenta muito frutífera so far, intervalada aqui e ali por muitas distâncias, subalterna a humores caprichosos, avanços, recuos e outras perguntas sem resposta.
Espero. Espero. Espero.
Chega atrasada, como é costume para me contrariar. Desta vez não posso dizer nada. É sensato não provocar a lava de um vulcão. Avisto-a ao longe, vem leve, vestidinho colorido de verão, casaco de algodão, maravilhosa pele tostada, aparentemente um bom indício mas que pode contrastar com o que vai lá por dentro. Precaução.
O abraço é contido e sei que demorará tempo a que o gelo se quebre. Aproveitamos a longa Marginal para um passeio noturno. É necessária uma via dessas para as muitas coisas que tenho a dizer, mais que ela, que sei aguardar pelo momento certo para disparar o que lhe vai na alma. Acontece um pouco depois. Nada bonito mas eu alieno-me e anestesiado no quebra-gelo de alguns meses de ausência, olho-a e sinto vontade de a propor ao Bigas Lunas, caso ele não tivesse morrido mês passado, como estrela ingénua e trémula num certo filme dele, que se fosse mulher da vida, abriria uma excepção aos meus princípios e propor-me-ia ser seu cliente. Não lho disse com estas palavras mas sei que a mensagem passou. É muito desejo.
Deixo que esgote as palavras e que o gelo vá derretendo as pedras interiores. Espero pelo cansaço para que possa desbravar caminha para toque tímido, dois, três, sucedidos por abraços longos, respirações sentidas, rumo ao silêncio. Chegam tarde mas chegam. Num modesto carro e após lhe oferecer uns souvenirs que trouxe de longe, prontos a amolecerem um coração que já é mole por natureza, tudo termina de forma expectável ainda que contornos sempre novos. Vida!
O resto não interessa ao leitor porque esta relação é uma mousse de imprevisibilidade com vários contornos pouco ortodoxos na ação. É fruto de necessidades várias, sobretudo de compreensão e essas ficam para mim. Sei que deixa os vidros totalmente embaciados e os dois errantes exaustos. A ergonomia dos carros ainda não pensa em tudo. O rescaldo é ótimo e ao som do que ela mais gosta de ouvir no momento. Positivo.
Quase tudo foi feito, quase tudo foi dito, quase tudo porque sei que há coisas que não dirá mas que sente, já o percebi há muito. Que odeia pelo menos uma das minhas vertentes - um pretenso domínio psicológico e manipulativo que diz existir, mais o facto de nunca a levar a sério e depois ter de a procurar, usando golpes que nem são propriamente a minha forma de ser nem estar que me descaracterizam por completo mas me fazem voltar a sentir o sangue. O saber que não consegue ser ela própria comigo, pelo menos desde o dia aceso em que a comparei a um limoeiro e que um limoeiro nunca daria laranjas, logo de seguida arrependendo-me porque muitos dos desejos e outras necessidades de compreensão que tenho serem possíveis com ela e não serem possíveis com outra pessoa que paira neste capítulo da minha vida. E que evita dizê-lo na cara. Ao invés, vai-se mantendo por perto, no limiar da segurança, no verso, nunca fechando a porta definitivamente, aproveitando o lado menos ruim que há em mim, que certamente lhe deve dizer alguma coisa. De outra maneira não existirá explicação. Sem juras, assinaturas e formalidades talvez seja esse o segredo desta ligação de carinhosa pimenta muito frutífera so far, intervalada aqui e ali por muitas distâncias, subalterna a humores caprichosos, avanços, recuos e outras perguntas sem resposta.
***
![]() |
| Esplendor |
Já no covil e no entretanto preparo dois descafeinados, aproveitando o que de melhor ele tem, o aroma, e evitando o pior, a droga do mesmo. Ficam a arrefecer no fogão da pequena cozinha porque lá nem mesa existe. São para saborear na pequena varanda, a olhar de cima sobre o mundo que acorda e aproveito para lhe apresentar a melhor banda deste ano solar.
São escutas compulsivas nas alturas de um 5º andar que comemoram esta radioactividade, num abraço que lhe mima as formas ao mesmo tempo que servem para azucrinar os ouvidos da querida vizinhança que teima em aparecer nos elevadores nos momentos mais impróprios.
Entretanto os estores fecham-se, deixando apenas a luz suficiente para que uns raios tímidos possam testemunhar um corpinho perfeito que por entre vapores eclode do banho. No ar, o odor ao meu gel de banho. Fica a cheirar a menino, nada que lhe tire um sequer pingo da sua feminidade nata, nem as minhas boxers com uns caracteres escritos em cirílico, compradas num país qualquer que lhe sobem e aproveitam para lhe beijar serpentinamente as formas. Ri-se, porque dormir totalmente nua é desconfortável - diz quem parece nunca vir preparada para nada. Já me levou algumas. O próximo pack será por conta dela - digo-lhe mais vezes do que aquelas que desejaria.
Entretanto os estores fecham-se, deixando apenas a luz suficiente para que uns raios tímidos possam testemunhar um corpinho perfeito que por entre vapores eclode do banho. No ar, o odor ao meu gel de banho. Fica a cheirar a menino, nada que lhe tire um sequer pingo da sua feminidade nata, nem as minhas boxers com uns caracteres escritos em cirílico, compradas num país qualquer que lhe sobem e aproveitam para lhe beijar serpentinamente as formas. Ri-se, porque dormir totalmente nua é desconfortável - diz quem parece nunca vir preparada para nada. Já me levou algumas. O próximo pack será por conta dela - digo-lhe mais vezes do que aquelas que desejaria.
E então chega a tranquilidade. O corpo e a alma pedem descanso e os silêncios vão tomando conta do pequeno cubículo. Enrosca as pernas lisas e macias às minhas num xis mal feito mas acolhedor e aninha-se. Comportamento estranho para quem me acusa várias vezes de ser um inimigo. Resta apenas tempo para um beijo genuíno só nosso, que já não permite lábios, só língua, e que se tornou a nossa forma peculiar de beijar, algo que de inicio pensei ser coisa da gera dela mas que agora sabem bem. Foco-me nuns olhos que entretanto se fecharam, lanternas vivas de inúmeros sinais que já descodifiquei, outras vezes lanternas de luz turva que já desisti de entender, menos vezes lanternas chorosas de uma ou outra lágrima fácil e embrulhados num abraço que vai tornando o meu corpo dormente. Mas é uma dor boa. Apago também, adormecendo ao mesmo tempo todos os nossos fantasmas.
Eles são pacientes.
Eles são pacientes.



