domingo, 5 de maio de 2013

1º de Maio

Fim de tarde de 1º de Maio. Na rua, esquerdistas mais os seus capangas sindicalistas radicalizam o discurso. Falam pelos trabalhadores mas não se vê ninguém a trabalhar. Por culpa deles adio a minha saída para o crepúsculo. Quero sair bem-disposto.
Vou ao encontro de uma cigana que já conheço como o baralho de cartas. Alguma saudade condimentada com outras doses mais complexas são o meu combustível.  Li há tempos que é necessária alguma loucura (e incongruência) para manter a sanidade e busco-a pelo crepúsculo da tarde.

A noite já caiu há muito e perdi a noção das horas. Caxias, a do famoso forte, da prisão, dos presos políticos é o cenário. Na rua o pó inquieta-se e voa do chão ao céu, em dirty dances, capazes de varrer tudo à volta, tudo excepto os cães vadios, que já se adiantaram naquilo que eu pretendo que a minha noite termine. 
Espero. Espero. Espero.
Chega atrasada, como é costume para me contrariar. Desta vez não posso dizer nada. É sensato não provocar a lava de um vulcão. Avisto-a ao longe, vem leve, vestidinho colorido de verão, casaco de algodão, maravilhosa pele tostada, aparentemente um bom indício mas que pode contrastar com o que vai lá por dentro. Precaução
O abraço é contido e sei que demorará tempo a que o gelo se quebre. Aproveitamos a longa Marginal para um passeio noturno. É necessária uma via dessas para as muitas coisas que tenho a dizer, mais que ela, que sei aguardar pelo momento certo para disparar o que lhe vai na alma. Acontece um pouco depois. Nada bonito mas eu alieno-me e anestesiado no quebra-gelo de alguns meses de ausência, olho-a e sinto vontade de a propor ao Bigas Lunas, caso ele não tivesse morrido mês passado, como estrela ingénua e trémula num certo filme dele, que se fosse mulher da vida, abriria uma excepção aos meus princípios e propor-me-ia ser seu cliente. Não lho disse com estas palavras mas sei que a mensagem passou. É muito desejo.
Deixo que esgote as palavras e que o gelo vá derretendo as pedras interiores. Espero pelo cansaço para que possa desbravar caminha para toque tímido, dois, três, sucedidos por abraços longos, respirações sentidas, rumo ao silêncio. Chegam tarde mas chegam. Num modesto carro e após lhe oferecer uns souvenirs que trouxe de longe, prontos a amolecerem um coração que já é mole por natureza, tudo termina de forma expectável ainda que contornos sempre novos.  Vida!
O resto não interessa ao leitor porque esta relação é uma mousse de imprevisibilidade com vários contornos pouco ortodoxos na ação. É fruto de necessidades várias, sobretudo de compreensão e essas ficam para mim. Sei que deixa os vidros totalmente embaciados e os dois errantes exaustos. A ergonomia dos carros ainda não pensa em tudo. O rescaldo é ótimo e ao som do que ela mais gosta de ouvir no momento. Positivo.




Quase tudo foi feito, quase tudo foi dito, quase tudo porque sei que há coisas que não dirá mas que sente, já o percebi há muito. Que odeia pelo menos uma das minhas vertentes - um pretenso domínio psicológico e manipulativo que diz existir, mais o facto de nunca a levar a sério e depois ter de a procurar, usando golpes que nem são propriamente a minha forma de ser nem estar que me descaracterizam por completo mas me fazem voltar a sentir o sangue. O saber que não consegue ser ela própria comigo, pelo menos desde o dia aceso em que a comparei a um limoeiro e que um limoeiro nunca daria laranjas, logo de seguida arrependendo-me porque muitos dos desejos e outras necessidades de compreensão que tenho serem possíveis com ela e não serem possíveis com outra pessoa que paira neste capítulo da minha vida. E que evita dizê-lo na cara. Ao invés, vai-se mantendo por perto, no limiar da segurança, no verso, nunca fechando a porta definitivamente, aproveitando o lado menos ruim que há em mim, que certamente lhe deve dizer alguma coisa. De outra maneira não existirá explicação. Sem juras, assinaturas e formalidades talvez seja esse o segredo desta ligação de carinhosa pimenta muito frutífera so far, intervalada aqui e ali por muitas distâncias, subalterna a humores caprichosos, avanços, recuos e outras perguntas sem resposta.
                                                  
                                                                           ***
Esplendor
Entretanto amanheceu e dizem ser 2 de Maio. O mundo sai da toca por entre neblinas e raios de sol e as formiguinhas já se movimentam na rua em grande azáfama. Não é o dia do trabalhador mas parecem ir trabalhar. Apago isso da memória e foco-me em mim onde  prevalece o teu odor, húmido, estranho sabor a maresia, a caranguejo, tal como os videntes das estrelas te classificam, é na roupa, é no pescoço, é nos lábios, é nos dedos. Ficou tudo aqui e no ar já sinto a conjugação para que o simultâneo continue pelo resto do dia porque o dia nasceu e ela não parece não ter vontade de ir. Tem tiques de Cinderella, ou chega a casa antes da meia-noite ou então no dia seguinte quando a tarde já vai dizendo adeus. Dormir junto também faz parte disto, diz-me constantemente. Nem sempre convivo bem com esse lado.
Já no covil e no entretanto preparo dois descafeinados, aproveitando o que de melhor ele tem, o aroma, e evitando o pior, a droga do mesmo. Ficam a arrefecer no fogão da pequena cozinha porque lá nem mesa existe. São para saborear na pequena varanda, a olhar de cima sobre o mundo que acorda e aproveito para lhe apresentar a melhor banda deste ano solar.


São escutas compulsivas nas alturas de um 5º andar que comemoram esta radioactividade, num abraço que lhe mima as formas ao mesmo tempo que servem para azucrinar os ouvidos da querida vizinhança que teima em aparecer nos elevadores nos momentos mais impróprios. 
Entretanto os estores fecham-se, deixando apenas a luz suficiente para que uns raios tímidos possam testemunhar um corpinho perfeito que por entre vapores eclode do banho. No ar, o odor ao meu gel de banho. Fica a cheirar a menino, nada que lhe tire um sequer pingo da sua feminidade nata, nem as minhas boxers com uns caracteres escritos em cirílico, compradas num país qualquer que lhe sobem e aproveitam para lhe beijar serpentinamente as formas. Ri-se, porque dormir totalmente nua é desconfortável -  diz quem parece nunca vir preparada para nada. Já me levou algumas. O próximo pack será por conta dela - digo-lhe mais vezes do que aquelas que desejaria. 

E então chega a tranquilidade. O corpo e a alma pedem descanso e os silêncios vão tomando conta do pequeno cubículo. Enrosca as pernas lisas e macias às minhas num xis mal feito mas acolhedor e aninha-se. Comportamento estranho para quem me acusa várias vezes de ser um inimigo. Resta apenas tempo para um beijo genuíno só nosso, que já não permite lábios, só língua, e que se tornou a nossa forma peculiar de beijar, algo que de inicio pensei ser coisa da gera dela mas que agora sabem bem. Foco-me nuns olhos que entretanto se fecharam, lanternas vivas de inúmeros sinais que já descodifiquei, outras vezes lanternas de luz turva que já desisti de entender, menos vezes lanternas chorosas de uma ou outra lágrima fácil e embrulhados num abraço que vai tornando o meu corpo dormente. Mas é uma dor boa. Apago também, adormecendo ao mesmo tempo todos os nossos fantasmas. 
Eles são pacientes.

sábado, 16 de março de 2013

O animal e o poeta

Tenho andado cansado ultimamente. De muitas coisas.
De ser um artista circense, neste circo que é a vida. Um circo onde não se paga bilhete porque os palhaços somos nós. E ando cansado de ser um cortês vagabundo social, que deambula por avenidas ora largas como membro da plebe, ora por vielas escuras à procura de alguma estrela que tenha caído na terra e que me recarregue com a sua luz. Com objectivos nevoados, um corredor de fundo sem meta à vista e coerente apenas na sua insatisfação. 
Tenho o animal e o poeta adormecidos dentro de mim e eu sem eles não sou eu. Parecem ter-me deixado a falar sozinho e eu não lido bem com isso. 
Não tem muitos dias precisei do poeta: tímido e apaziguador, companheiro, de coração nobre e gentil em alma coerente, por modo a resolver um mal entendido da forma suave que se lhe exigia mas ele não acordou. Desolado fiquei. Há menos tempo precisei do animal: forte, brincalhão, arrogante, sarcástico, luxurioso, provocador, para sair por cima numa outra situação que exigia o pulso e a rapidez desse quadrúpede, mas ele também não acordou e fez-me uma presa fácil num mar de enganos. Parecem ter desistido da máscara que vestiam e agora sinto-me um carro desgovernado, prestes a bater ao primeiro arbusto. E necessito de ambos para o meu equilíbrio; o poeta para dar o mote, o animal para terminar o soneto, mas eles foram-se. 
E é assim. A vida vai me agredindo porque sabe que quero viver e muitas vezes apetece-me desistir e enfiar-me para sempre no meu casulo que por vezes parece ser a razão da minha real existência; sem que o intuito seja me transformar em borboleta mas por forma a me decompor, pois é no casulo onde ganho energia e sonhos que me fazem mover rumo a novos destinos, mas outras vezes também são amarras difíceis de me libertar. 
E porque muitas vezes também o peço. Poder fechar as portas de mim, abraçar o isolamento e tratá-lo como um irmão que nunca tive; da minha reclusão que não se cinge somente ao covil onde pernoito, sempre impessoal porque tudo na minha vida parece temporário; o ser deixado ao esquecimento e em espiritualidade mesmo estando a léguas de Lhasa. Porque também me faz bem  me sentir como um barco no fundo do mar, repleto de musgo à volta, e que da vida só presencia uma ou outra visita de peixes alegres em ritual de acasalamento que rapidamente abandonam o cenário após o seu êxtase e poder ser apenas um espectador e deixar-me a relaxar como um crocodilo envolvido na lama, que não está morto mas que se faz passar por isso, porque é a forma mais sapiente que encontra para se fortalecer. E são nessas viagens que rapidamente chego ao deserto, onde parecem nunca existir oásis, nem sol, nem palmeiras, nem água sequer. Só tempestades de areia que me soterram, tempestades de vento em constante inconstância. Mas eu sempre me levanto, cuspo areia todos os dias, limpo-me e volto à estrada, mesmo que opte sempre pelo caminho errado, não menos vezes, o caminho mais longo.
O não precisar de abraços, de palmadas nas costas, de chamadas, de nenhum tipo de plateia calorosa também tem o seu verso. E esse é um sabor agri-doce, admito.
E ontem senti a falta de pessoas. Há quem sinta falta delas todos os dias, o que não é o meu caso já que tanto sou feliz com elas como sem elas mas ontem, mesmo estando rodeado por tantas senti essa falta. Das verdadeiras, das espontâneas que são cada vez mais raras, e de tal forma o manifestei que o sensação gerada ali, naquele momento, é que o único falso presente era eu.
E ontem também passei por uma cigana que pedia na rua. Desta vez não me tentou agarrar na mão e me dizer que eu tinha problemas, pois ontem provavelmente se espantaria por não encontrar linhas nestas mãos. De copo de plástico na mão, exercitava-se na rua em movimentos de peditório e voz de súplica banhada em lágrimas tímidas, notoriamente cansadas das rugas que percorrem todos os dias. Acabei por passar por ela com a indiferença que manifesto a toda a gente que não tenha um belo par de mamas ou um traseiro de sul americana; mas desta vez não por desprezo mas por observar que ali e naquele momento, não a via como uma pedinte mas uma camarada minha e a única diferença dela para mim, para além da estatura, era um copo na mão e a lágrima no olho, porque a cigana ainda não percebeu que as dores pessoais são invisíveis aos olhos dos outros enquanto grupo. Aprende a chorar por dentro, tentei-lhe dizer no cruzamento de olhares.

Também são nestes momentos que peço pelas quiet nights, de voltar a pintar como uma criança, como sugeria Picasso, porque elas estão mais perto do Céu que é a perfeição; de voltar a ver paz nos olhares que observo, mas sobretudo no meu. De ir buscar inspiração ao fundo de um poço e voltar de lá com um balde cheio dela e de outros sonhos também, de voltar a respirar ar puro, de sentir o amor verdadeiro nos olhos dos outros, mas sobretudo nos meus, que são secos e poucas vezes o viram verdadeiramente e poder sentir isso até aos dedos dos pés, que andam frios mesmo que por algumas carícias de ocasião. E também gostaria de reaver os meus livros de filosofia que ficaram perdidos numa casa qualquer. E dos rabiscos que desenhava e que hoje já não se atrevem a sair até à folha que continua pálida e desamparada. E dos textos sarcásticos com alguma vida dentro, venenosos ao melhor estilo do animal que adormeceu e não acordou. Foram-se também, deixando-me não mais leve, mas mais vazio, tal e qual as tristes jarras que suportam flores ainda que sem uma gota de água lá dentro.
E de escrever cartas de amor, mas das Verdadeiras, que desabrocham do ventrículo, labirínticas como a mente desconhecida e de tudo capazes, inquietas como um yorkshire,  perfumadas como a rosa vermelha, verdadeiras como Deus. Das que embebedam os sentidos, porque não existe bêbado mais feliz que o coração apaixonado.
E do Nietzche e do Fernando e da Florbela... que não têm aplicação móvel para que os possa ler nas horas mortas por entre as obrigações, pois os compreendo tão bem sem nunca os ter conhecido. E são esses que compreendo e que me compreendem que me fazem falta. São muito poucos, alguns nem são desta Era. Os companheiros da alma nem sempre são pessoas, convençam-se disso. São diferentes dos da extra-onírica, aquela que nos agride todos os dias, que é diferente daquela que nos nossos sonhos nos fazem heróis e princesas. Certos sonhos são como a droga e cada vez mais me convenço que a quantidade de drogados é infinitamente superior ao das estatísticas.


E à memória chegou-me agora J*, sempre a esta hora, distante mas de vez em quando omnipresente. Não é anjo nem feiticeira que bate à janela mas sim uma ave rara que percebia no olhar e que eu tive a sorte que pousasse uns tempos no meu ninho. Certo dia e em tom desafiador, característica que muito lhe apreciava, confessou-me que se um dia me dissesse adeus, seria sem aviso e que só sentiria a minha falta quando estivesse no fundo do poço, quando se sentisse abandonada e carente, nunca em outra situação qualquer, porque eu não era quem a fazia feliz, pelo contrário, era uma extensão de alguma agonia sua. E eu pensava o mesmo dela, sem que nunca lhe tivesse dito isso, como mandam as regras do cavalheirismo. E como são cada vez mais raras as pessoas realmente verdadeiras? Somos quase todos assim, mesmo que não o confessemos. Fomos e continuamos iguais, estou certo disso mesmo que a nossa ligação se mantenha num intervalo infinito, que não chegou a ver uma crise ou um adeus porque a segunda parte só depende da nossa vontade. Perigosa vontade e um passo a mais rumo ao abismo. 
E passadas muitas ondas desde essa fugaz estória, ainda hoje e neste momento quando ouço o Rodrigo, na altura sozinho, hoje com a Lula; como nessas tardes, porque a minha obrigação era nocturna; próximas a uma estação de comboio ruidosa; sei que em algum lado, provavelmente ainda lá, como manda a bíblia dos sedentários, ainda aumentas o volume à passagem de um barulhento e estou certo que ainda a escutas debruçada numa varanda de mármore gasto, vista de um quarto pequeno mas colorido, face escondida em cabelos compridos, espessos e ondulados, perfumados, ao sabor de um vento inconstante.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Vendedor de perfumes

Não tenho a certeza acerca das sensações que os perfumes masculinos despertam nas mulheres já que sobre isso elas pouco escrevem por aqui mas não é novidade que as fragrâncias artificiais são concebidas com o intuito de atrair o sexo oposto e eu sempre me senti uma presa fácil desses aromas. Nem só de matéria sou constituído e o que está para além dela me atrai cada vez mais.
Da mistura de óleos essenciais com álcool inventada pelos árabes há alguns milhares de anos para disfarçar os efeitos do calor desértico nos corpos, vieram a conhecer uma rápida expansão que não mais parou e hoje certamente que não existe homem algum que fique indiferente a um perfume feminino, quer o sinta no pescoço dela, numa loja ou num vulto que passa por si na rua e que lhe obriga a olhar para trás, sobretudo se este for capaz lhe incendiar os sentidos, nem que seja por uns míseros segundos. Sempre fui sensível a esses aromas que chegam a ter a capacidade de transformar uma mulher, não no aspecto mas naquilo que vai muito além do horizonte visual.
Não era nem é a mulher que eu idealizaria para mim num hipotético cenário de eleição; o local já era mais apropriado e foi meu aliado na aproximação. Um qualquer clone de Irish pub em cidade germânica com boa e ritmada música acústica tocada por um alegre amador de cordas vocais e acústicas.
Aproximei-me mais pelo cheiro que pela imagem, ao passar rente a ela, de copo na mão. Ficou-me a ideia de uma estrangeira, tal como eu. Segunda aproximação, qual falcão e o meu disparo com conversa da tanga na língua universal, fundamental para quebrar o gelo naquele encontro com o desconhecido. Sentia essa necessidade, não propriamente pelo que via à minha frente, mas pelo o aroma que resplandecia dali, semelhante à sensação de um faminto parado à porta de um restaurante e enfeitiçado pelo cheiro do refugado que sai de uma cozinha. Não consegue sair dali.
Moça do caribe, pele fina em traços meigos, permanente capilar e dentes reluzentes, cor de chocolate em lábios generosos. Quebrado o gelo superficial, salta um tchim tchim, dois ou três sorrisos por não conseguirmos decorar o nome um do outro, um profundo eye contact para desviar atenções terceiras e um agir da minha parte que num outro local seria visto como um assédio vulgar. Mas não era. Queria estar estar perto do epicentro do vulcão aromático sem lhe dizer que era essa a razão que mais me tinha atraído. Mais meia dúzia de palavras gastas ao som do ritmo envolvente e a fatal pergunta, a menina dança? Foram apenas duas e por algumas conversas ao ouvido totalmente secundárias àquela fragrância, fez-me apaixonar por aquele pescoço. Por momentos perguntei à minha loucura se lhe poderia comprá-lo e levá-lo comigo. Dormiria no céu e se o aroma fosse um local onírico onde vive um sonho descreve-lo-ia como intenso e suave; intenso na proximidade centimétrica e quando o vento sopra a favor, mais suave quando sopra a desfavor e capaz de me fazer cair num imenso roseiral sem espinhos, banhado em caramelo ou chocolate num quente dia de sol onde respirava paixão até aos alvéolos pulmunares. Não faz sentido na mente de quem não o sente, mas vós provavelmente conheceis aromas que vos provocam algo semelhante ou algo que só faz sentido nas vossas cabeças. Disso estou certo.
É difícil descrever estas fragrânciaas com exactidão, pois variam de acordo com os gostos de cada um para além de serem ao mesmo tempo o resultado dos nossos desejos e dos labirintos que vezes sem conta nos baralham a mente. Mais esquizofrenia por favor, por um mundo melhor. 


Ao som de um cover ritmado deste novo Lenny kravitz, e embrenhado nos braços e num pescoço que libertava o mais apaixonante dos aromas, chegou a me acender o que não era suposto acender e me fazer reagir com bem mais vigor, tornando-me inquieto, levando-me ao aperto daquela delgada cintura, a respiração e a batimentos mútuos perceptíveis do outro lado, raros quando não se sente nada pela pessoa que está à nossa frente, tão estranhos que foram capazes de me fazer querer saber mais sobre cardiologia aplicada aos encontros fortuitos.
Já passaram algumas semanas desde esse encontro e na impossibilidade de voltar a encontra-la e lhe perguntar que perfume era aquele, à medida que a minha visão vai turvando a fotografia que dela me ficou como o puzzle visual que vai perdendo peças e se decompondo gradualmente com o passar dos dias, ficou o olfacto que agora ocupa esse vazio visual e que ainda não sentenciou um momento tão simples e quotidiano e que me vai provando que o olfacto tem uma longevidade de tartaruga, que permanece por muito mais tempo nos sensores da mente que uma bela e gráfica imagem por mais deliciosa que ela seja.
Ontem um pouco perdido por uma outra cidade e enquanto esperava por alguém entrei numa perfumaria e sem ligar ao que as vendedoras me tentavam impingir decidi investigar por mim próprio. Esse aroma de feitiço poderia ser um de tantos mas saí de lá sem nenhuma certeza. Nenhum era como aquele, já que à medida que aproximava os frascos do nariz ia ficando cada vez mais embriagado pela mistura de fragrâncias que começaram a me enganar, tal e qual o efeito das misturas alcoólicas. 
Do que tenho a certeza é que o olfacto anda subvalorizado nos dias que correm. É o fumo do cigarro, é a transpiração, tudo serve para demonstrarmos desconforto acerca dos cheiros que nos incomodam e raramente se ouve falar no oposto, dos agradáveis, que estão praticamente confinados aos pratos que nos chegam à mesa e ao paladar. 
Andam subvalorizados os aromas que nos incendeiam. Para a maioria, não para mim.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Jardim de Inverno

Estação algures em Westphalia, onde só lá estava eu.
Cansaço sem sono, esperança sem motivação, com saudades de alguém que não consigo decifrar, da vida que não tive e que possivelmente não terei. Desgostado por um racionalismo que umas vezes me protege mas que nunca me liberta - no voz off do comboio uma fraulein berra uma informação qualquer... poderia acabar o mundo, pensei...- emoção interior lá dentro de uma gruta que faz eco, à flor de uma flor frágil mas quente que ficou sem cor à primeira chuva. 
Continuo uma caminhada que não sei para onde me leva, mas que sempre me ensina. Estarei condenado a aprender eternamente se isso já não me entusiasma tanto como antes?
Mas vou, porque para frente é o caminho,  vou sem medo, a voar, como um grão de pó, porque nunca fui nada mais que isso.

Cinco anos e meio passaram desde outra odisseia, demasiado bitterweet. Sem saudades do quinto que ganhei, apenas orgulhoso pelo calo recebido, pela insónia que me mantém desperto, pela suspeita que vejo à primeira sombra, por um anjo que me guardou e por um ou outro flash que ficou. 
A viagem prossegue e hoje  não escrevo mais na folha branca que aprendi a acarinhar,  mas num smart qualquer coisa. É bom porque me permite ter a vista livre, sobretudo e neste momento para a respiração que eclode dos generosos seios da passageira à minha frente. Pena é observar um semblante de choro no rosto e olhar difuso por entre uma agenda e os vidros da janela. Apostaria que ali dentro também rebentara uma tempestade. Tento meter conversa com ela para me distrair mas a moça encolhe os ombros apesar do sorriso tímido. Não fala a língua da globalização e volta a perder-se num infinito qualquer para além daquela janela. Faço o mesmo e olho la para fora e vejo a pitoresca cidade de Mainz, repleta de telhados negros, que nesta altura do ano, cobertos de neve dão a ideia de cidade postal.
Vê-se pouco para além da janela, a manhã acorda tarde, já pelas oito horas e eu já levo o dobro delas em cima, nem sei quando descansarei. 

Algures em Nord-Rhine
Hoje também pensei na minha avó, que vive cada vez a custo e que ate a Ele já pede para a levar. Tenho-a no altar, por ter construído uma vida digna, sem nunca ter comprado uma mala da moda, sem  nunca ter usado uns óculos escuros, sem nunca ter tido um sequer telemóvel, sem nunca ter precisado de sair da sua pérola, num horizonte visual que nunca ultrapassou os cinquenta quilómetros, salvo uma ou outra excepção, para ir à Fátima e uma viagem intercontinental já em idade avançada. Vidas opostas tiveram os seus filhos, um perdeu-se na América do sul para fugir à guerra colonial e outra foi levada, ironicamente por um militar do Ultra-mar, da pérola para a metrópole onde anos mais tarde eu viria a conhecer a luz. Ficou sozinha mas não esmoreceu e felizmente que hoje tem muitos que cuidem dela. Cultivou o legado que hoje dá os seus frutos e felizmente não vive sozinha. Não sei se ela aguenta até ao final do ano e isso entristece-me a cada quilómetro que as trilhas vão ditando uma distância maior. 
Neste Natal e devido ao turbilhão que têm sido as últimas estações, estive para lhe perguntar qual a fórmula dessa felicidade pulvilhada de simplicidade e resignação mesmo sabendo que ela poderia não entender a pergunta. Mas ela não me iria explicar qual é essa formula, porque esse saber que os antigos detêm não se explicam aos mais novos por livros, ou artigos, nem em acetatos, nem quadros nem gráficos, e também não é decifrável embora eu consiga ver qualquer coisa quando paro para a ouvir, com a sabedoria e sensatez daquela que é duas vezes mãe, passa as mãos pelo rosto, perde o olhar em algum recanto do quarto e vai falando, até sobre os sentimentos que lhe despertam pessoas que nunca viu e lugares onde nunca esteve. Mas gostaria... sobretudo quando sou assolado pelas dúvidas, pelo sempre temido desconhecido e o cansaço dos 23 quilos que arrasto há la algumas horas, porque como dizia o Guedes, meu bom amigo matarroano de Vila Real, sósia perfeito do vocalista dos The Verve, A tua vida cabe numa mala, expressão que anteriormente me orgulhava e hoje por vezes me soa a sentença.


Com cinco graus negativos saio da quarta estação dessa longa noite, gelada, escura, impessoal e labiríntica  por estações sombrias e desertas, repletas de degraus gastos, de relógios iguais e que colocaram à prova a minha endémica falta de concentração e chego a mais uma cidade nova, da qual nunca tinha ouvido sequer falar. Tenho algo importante para fazer aqui, mas não levo mapa. Já não vale a pena, porque os mapas dão instruções exactas, impedem-me de poder me surpreender com o que vejo à minha frente e eu já deixei de querer que me guiem há muito tempo. Lá chegarei, mais cedo ou mais tarde. Imprescindíveis são os meus senheiser que para além de me protegerem as orelhas da geada, aquecem-me com música distante e me transportam para lugares onde tudo é mais leve, chegando mesmo a acreditar que me aquecem as mãos o som das teclas dos pianos ou das batidas que ouço através deles e é nesses momentos que me esqueço de onde estou, baralho a minha mente, o meu cenário envolvente, vejo outras sombras e logo pouso num recanto onde no céu voam balões e na terra passeio pelas cachoeiras e maçãs do amor que o Pierre e a Susana tão bem cantam. 

*E este blogue vai ressuscitando aos poucos, ainda que sem interatividade. Espero que os 2 ou 3 leitores deste espaço me  compreendam. 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Regresso ao passado

O ano diz-nos hoje Adeus. Fê-lo ano passado e também fará no próximo. Vai para nunca mais voltar. Deixa-nos a alguns mais velhos,  deu mais força a uns, retirou forças a outros, trouxe uns à vida e levou outros com ele. Já eu transitei por ele à boleia do vento; pequei como um pecador, arrependi-me de muitas coisas e ainda pago essa penitência mesmo que nem sempre me desculpe após ela. Perdi-me em muitas vielas, algumas conhecidas, outras desconhecidas. Menti, muitas vezes a mim próprio, caí em erros novos mas também nos do costume, e esses custam-me mais. Fui escravo dos hábitos que não consegui deixar, tive medo da energia do que ficou suspensa nos silêncios e nas palavras que ficaram por dizer, continuando incapaz de aprender com os meus erros, incapaz de viver com uma só face. Incapaz de ser só um. Incapaz de viver em paz comigo próprio, vivendo como um adversário de mim próprio, que me espicaça constantemente em suposto gesto de motivação.

Certo também é que neste caminho de trezentos e sessenta e cinco sóis também fui encontrando Deus por aqui e por ali, fosse numa sinfonia de Mahler que escutei numa exposição em Koln, nuns meigos olhos verdes em várias paragens lusitanas, num precipício em Fort Laudardale, terra distante, onde o mar lá em baixo contava histórias, ao som dos assobios do vento, sarapintados por gaivotas em transe.
Encontrei-o também num banco de jardim numa ilha chamada Las Mujeres onde o azul turquesa aquecia águas mornas sob olhares morenos e tranquilos de gente humilde e onde se sentia o intenso cheiro do peixe, que ainda vivo lutava pela vida entre o fio e o anzol. 

E as pessoas à minha volta que se dizem de perfeita saúde, sobretudo a mental?! Ah, como são cada vez mais os enfermos que os sãos, aqueles que vislumbro à minha frente! A quase totalidade deles levam adesivos colados na boca, por mais que cantem como rouxinóis. Quase todos circulam de olhos vendados por mais bonitos ou expressivos que estes sejam. Quase todos eles circulam como mendigos nas ruas, por mais que usem fartas e arrojadas vestes da moda e quase todos eles se abraçarão esta noite de tão felizes que julgam estar ao brindar o ano novo. Embebedam-se no engano da suposta alegria com ou sem álcool pensando assim afastar os fantasmas que os consomem como fósforos todos os dias do ano. Aguardem e confirmem. Enganam-se mais a si próprios do que Sísifo enganava os Deuses. Vivem em Coma mas não se apercebem. Poucos se apercebem e eu por vezes também não me apercebo.

Que o próximo ano seja diferente. Ser mais Eu, ver mais Vocês, e poder ver menos o outro, ver menos a outra, ver menos os outros - os pólos negativos de nós - que vivem cá dentro, alimentados por nós próprios, seres de ilusão, que nos mantêm incompletos e nos desiludem.


Em 1971 uma loira hippie de nome Joni Mitchell escreveu e compôs uma das músicas que mais covers recebeu ao longo dos tempos. Nos seus acordes fala do amor na sua voz fina e melancólica, o amor a alguém, que é semelhante ao amor que nutre pelo seu país, o Canadá.
Como este espaço sempre amou a música, fica aqui registado som que mais escutei este ano que agora finda, à letra coexistial, aos acordes simples e à aguda voz da Joni, que em muitos dias me deu alento. É assim que vos desejo um ótimo despertar para 2013. 
Beijos e abraços.

A case of you / Uma caixa de ti

Pouco antes do nosso amor se perder tu disseste
"Sou tão constante quanto uma estrela do norte"
E eu disse, constantemente na escuridão,
"Onde fica isso?"
Se me quiseres, estarei no bar"

Atrás de um porta-copos de papel
Na luz azulada da televisão
Eu desenhei um mapa do Canadá
Oh Canadá
Com o teu rosto rascunhado nele duas vezes

Oh, tu estás no meu sangue como vinho sagrado
Teu gosto é tão doce e tão amargo
Oh, eu poderia beber uma caixa de ti, 
E eu continuaria de pé
Oh e eu continuaria de pé

Oh, eu sou uma pintora solitária
Vivo numa caixa de tintas
Assusto-me com o mal
E sou atraída por aqueles que não têm medo

Eu lembro-me daquela vez que tu me disseste
"O amor a tocar almas"
Seguramente tu tocaste a minha, pois
Parte de ti flui de mim
Nestas linhas de tempos em tempos

Oh, tu estás no meu sangue como vinho sagrado
Teu gosto é tão doce e tão amargo
Oh, eu poderia beber uma caixa de ti,
E eu continuaria de pé
Oh e eu continuaria de pé

Eu conheci uma mulher, ela tinha a boca como a tua, 
ela conhecia a tua vida
Sabia os teus medos e ela disse
"Vá até ele, fique com ele, se puder
Mas esteja preparada para sangrar"

Mas tu estás no meu sangue, tu és o meu vinho sagrado
Tu és tão amargo, tão amargo e tão doce
Oh, eu poderia beber uma caixa de ti,
E eu continuaria de pé
Eu continuaria de pé.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Fui comprar cigarros...

Sabem qual é a maior diferença entre o Blogger e as outras redes "sociais"? É que se nos cansamos das outras redes apagamos a página e nem vale a pena dizer nada a ninguém porque no fundo ali seremos apenas menos um em centenas, já no Blogger não penso da mesma maneira e hoje, ao fim de quase 5 anos nestas lides, chegou o dia de dizer bye bye a este espaço, algo que já vinha pensando há muito tempo mas que fui adiando... sei lá por quê. 
Ao fim destes anos onde muito debitei, onde muito aprendi, onde muito critiquei, onde muito me ri, senti que o meu tempo se esgotou vem aí um novo desafio de vida longe daqui (seguindo a sugestão do nosso PM) uma nova odisseia que não padecerá de disponibilidade para estas coisas.
Só me resta dizer que gostei muito de andar por aqui e quando falo em gostar, falo nas pessoas que conheci por aqui. Gostei de vos acompanhar, de dar as minhas opiniões às peripécias das vossas vidas e dos vossos pensamentos. Costumo pensar que nos blogues, só 50% somos nós, os outros 50% são de quem nos dá o feedback e eu sinto-me satisfeito por ter tantos feedbacks diferentes ao longo do tempo.
Como desde dezembro de 2007 se criaram alguns laços por aqui, não queria apagar a luz sem antes deixar uma breve mas merecida referência a algumas pessoas que durante este tempo e em fases distintas tiveram paciência para ler as patetices que de forma assertiva ou errada fui escrevendo e que contribuíram com os seus comentários para um debate mais amplo sobre imensas temáticas. Na maioria dos casos segue também uma dedicatória musical no link próximo - uma memória sonora que me ficou de vocês. Sou muito sonoro, para quem não sabe. Inclui referências a comentadores de outrora e óbitos blogosféricos dos quais eu serei o próximo. Tentarei andar por aí e na medida das minhas possibilidades comentar nos vossos lugares sempre que tenha tempo ou que julgue que o que digo possa acrescentar mais alguma coisa e não apenas deitar mais lenha para a fogueira.


Assim e de forma aleatória gostaria de fazer uma referência à Marta, uma mulher com M grande, inteligente e ponderada, alguém com que se cria empatia muito facilmente; à Ana e à sua álgebra emocional, repleta de objectivos e partilhas, à Mona Lisa pelo seu espaço, um dos poucos que considero um verdadeiro achievement para a blogosfera e que demonstra que tudo é possível se tivermos vontade para tal; à Pink Poison pelos seus devaneios vários; à S* a minha mais antiga comentadeira; à princesa vulcânica Venúsia; à Ana, que sabe da vida e do que escreve; à Joana pelo seu belo mundo espiritual e pelas suas palavras de luz; à Redondinha gulosa por livros, manjares e fotos, à Lu pela sua luta diária; à Poetic Girl pelo seu talento em versos; à Pompix que já teve uma odisseia estrangeira semelhante a uma minha; à Joana, outra pessoa com uma luz muito própria; à Garota de Ipanema; à Sofia do T3à Madrigal pelas suas muitas sugestõesà Marciana, exímia comentadora dos Escapesà Liliana Maciel, futura mamã (que nasça perfeitinha/o é tudo o que te desejo), à Manu e as suas músicas retiradas do sarcófago e à aristocrática Julie d'Aglaimont, pertencente à linhagem dos Condes de Habsburgo e descendente de Luis XIV.
Outra nota para a maior chiliquenta da blogosfera, a Miss Murder; à agri-doce Catarina de muitas e calorosas discussões e consensos; à minha chavalinha Vica Esseker que com os seus relatos me faz manter contacto com o mundo dos adolescentes de hoje e à minha beloved June, tão estranhamente próxima.
Outro apontamento para as envolventes AC, pela forma genuína e interessante de contar o seu dia-a-dia e de bater no sexo oposto :), à Mariza, coerente pensadora de espírito livre e mulher Iceberg; à Utena, uma gverreira idealista para além de excelente contadora de histórias; à Flor e a escrita mais sedutora da blogosfera + a sua maravilhosa playlistà flor selvagem revestida de Orquídea, à Louise do diabo dentro dela e à sempre assertiva e luminosa Brandie. Uma última referência a três offliners especiais, à Andrómeda e a sua forma genuína de ser e interagir, à Helena que já seguiu por caminhos idênticos aos que eu seguirei e à Diana V. em períodos dark mútuos e na sua presença constante.


É muita mulher, não é?! Por isso uma menção especial aos "camaradas" da luta; ao meu grande irmão MJ, perdido e encontrado em muitas odisseias de vida; (neste momento está numa missão em Moçambique. Um voluntário da vida, este rapaz!) ao Firehead, um corajoso e destemido Cruzado do século XXI, depois de 88545 discussões na blogosfera... e que rijo que este demónio é, mas é de gente com a tua fibra que eu valorizo; ao Ulisses a quem lhe desejo as maiores felicidades nas suas aventuras musicais e literárias; ao Rui Coelho, um importante DJ que funde na perfeição as paixões pelo Zbording, as mulheres e os clássicos, Ao Ricardo detentor de um espírito crítico bem superior à média, ao Mr.Postman e por fim, ao Lucas, que continua firme na sua luta contra as forças genocidas progressistas da Nova Ordem.  Cheers and justice for all! :)


Um obrigado muito especial às minhas estimadas comentadoras do outro lado do Atlânticoà Patrícia Rocha, uma mulher de esperança e de grande coraçãoà Carolina Tavares, e a sua visão fotográfica sobre o mundo, as pessoas e as relaçõesà Vanessa Moraes e à Alê, as citadoras que mais aprecio neste meio; à Ana Cavalcantti pelos seus saudosos comentários; à Sônia Schmorantz pelos seus poemas e maravilhosas fotos de Floripa. Outra nota para a plus belle fille parisiense-paulista Sandra Amélie, à poetisa doida Luna Sanchez e à Carol Morais e o seu belo mundo desmondier e à lunar e espirituosa Graziela, que somadas só me fazem aumentar ainda mais o carinho que tenho pelo nosso país-irmão, de onde só guardo boas recordações e que espero um dia voltar.
Isto ficou grande e peço desculpa se me esqueci de alguém; sinónimo que este lugar não era assim tão inóspito quanto eu julgava, apesar de o ter projetado para poucas pessoas.

E pronto, chega de agradecimentos, deixo-vos com um som coexistial que dedico a mim próprio (se alguém quiser retribuir com um som eu estimarei, quer venha de Chopin quer venha da Rosinha) e que representa o meu sentimento acerca desta plataforma e das pessoas valiosas com quem me cruzei por aqui. E desculpem qualquer coisinha, especialmente os exageros, pois sei que nem sempre fui muito sensato a abordar certos temas por aqui e... nos diálogos também. Nobody's perfect.




Inté sempre minha gente! :)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Recomeços

Hoje deixaste-me aceso...

...sempre no teu jeitinho despretensioso de ser, raposa que chega e vai com pés de lã, a raposa que sempre me fascinou. Quando penso que não tenho muita sorte na vida, chego à conclusão  que não passo de um ingrato. Sou feliz em muitas coisas e há dois anos te conheci. Já tem dois anos. Ainda guardo os primeiros toques. 

Hoje também senti ciúme pela primeira vez, por que nem sempre falar contigo soube a mel. Nem sempre me consigo controlar. Até a Torre de Babel caiu. 
Queria ser eu hoje a dormir ao teu lado. Te tocar, te auscultar e sentir se ainda habitam borboletas dentro de ti. Gostaria de te ver sorrir, te olhar nos olhos, te beijar até ao enfarte e fazer algo que nunca deixaria para os outros: percorrer o teu corpo com a língua, na rapidez de um ladrão que assalta, uma serpente que desliza. Dizem que provoca tremores.

Queria partilhar contigo coisas insignificantes, coisas nossas, tantas as que tenho amordaçadas em mim e te ouvir o tempo que quisesses. E sei que são tantas as tuas necessidades. Gostaria de te ver a fazer coisas simples... a pôr musicas no computador, a mudar de canal, sentada à entrada da casa de olhar pousado no infinito ou a vaguear nela, com muita ou pouca roupa. Com pouca, para ser honesto, por que só despidos somos verdadeiros e poder te olhar como o fruidor se deleita na obra, daquela maneira como vimos o Conte d'hiver de Rohmer, expectante sobre o que diria o teu sorriso, o teu olhar, os teus lábios e gestos. 
E responder aos teus sinais.
Queria te sentir perto, muito perto, nem que fosse mais uma só vez e que nos pudéssemos espremer como se laranjas fôssemos, na libertação de energias, nos silêncios e nos gritos, nos desejos e nas vontades que o mundo ordenou castrar por decreto. Se dependesse de mim seríamos somente o suco, jamais o joio.
Queria sentir as tuas mãos a me despentear, as tuas unhas a me arranhar, a tua humidade, queria te suster, da esbelta coluna, às pernas fartas, rumo aos dedos dos pés. E fazermos um xis.
Dá-me a tua mão e vem comigo alegremente dançar, pela manhã cedinho até ao topo da montanha para saborearmos amoras silvestres. Vem comigo ao fim da tarde perto de uma praia qualquer saborear a brisa, sem hora para voltarmos, como adolescentes inconscientes, sem pais inquirindo, sem filhos chamando, sem maridos ou namoradas desconfiando. Queria esse momento, num lugar onde não teríamos nome, nem nacionalidade, nem passado, nem futuro, nem destino e onde mudos falaríamos por código que só nós conhecemos, perdidos ali perto, nas ondas do esquecimento. 

E sento-me a escrever isto na vontade de te ter sempre perto, no desejo de fazer as pazes comigo e com uma vontade imensa de recomeçar, por alguma linha perdida que se tornou treva nesta minha necessidade de luz. E poder agarrá-la com força de Sansão. 
Porque desconfias? Só o digo a quem amo. E são poucas vezes. Amo pouco, mas quando amo é com a vontade de um Deus.

Para Fábrica de Letras, tema de Setembro Recomeços.


*Adaptado de um texto antigo, perdido na Unidade C:

around the world

Geo [01-07-2012]